quarta-feira, outubro 04, 2006

SOBRE ALGUÉM QUE NÃO VEM

Sinto na pele o sopro leve e quente que me causa a tua lembrança. E olho entusiasmada o tempo, o vento que inquieta as cortinas da janela,o solitário e urbano pássaro que, pousado num fio elétrico, parece tão entediado quanto os incógnitos passantes as cruzarem-se no vai-e-vem das ruas.
Olho o torvelinho cotidiano formado em meu redor e tudo parece anunciar a tua chegada.
Como não soubesse a que atribuir tão suave e prazerosa ameaça, passo a ensimesmar-me, assim, como alguém que quer acreditar em algo que não vê, e espera, mordendo os lábios e apertando os olhos, extrair do pensamento uma visão do que não está; um espectro do que anseia ter em frente aos olhos.
Falo da busca acelerada e constante em mim por um sinal teu. E essa angústia latejante, que num lusco-fusco clareia e enegrece minhas esperanças, fala já à minha consciência que a muito já se foi o momento de esperar por uma chegada tão irreal.
Porque tu estás longe da maneira mais inextricável possível.
Porque em teu coração pulsa, agradável e intimamente, um amor que não é meu. E o puro amor que te enternece é o mesmo que esmaece as cores brilhantes do meu sonho... Esse que é te ver chegar aqui, eufórico, desmesurado... Com a boca cheia de ternuras e indecências.
Mas não é meu esse amor.
Ainda que minha tola obstinação implore pelo contrário, a porta da minha casa não receberá nos trincos o impulso dos teus punhos ansiosos. Nem as colchas da minha cama revelarão os doces vestígios do teu cheiro na manhã seguinte...
Porque tudo que há em mim, o desejo, a esperança, a feliz temerosidade, são tudo ilusões... Como quem mira nostálgico uma dileta estrela, e só porque ela está lá (e é tão linda!), ignora o próprio absurdo, e espera vê-la cair-lhe nas mãos.

Sabina.

4 comentários:

Anônimo disse...

Eu mal termino de comentar sua primeira postagem e você me surpreende com mais este banho de ternura.
Como leitora freqüente do confessionário, criando coragem para em fim tornar-me uma confessioneira, me alegro a ver a poesia de pessoas como você, Valério e alguns outros menos assíduos que se permitem poemizar o ser, traduzindo-o em um sentir sem limites ou amarras.
E mais uma vez ratifico que em minhas leituras noturnas, solitárias e muitas vezes sonolentas, você é muito bem vinda!
Frida

Anônimo disse...

Além do banho de ternura, quase esqueço de mencionar o rico e notavelmente rebuscado, que não me pareceu forçado ou artificial. Sem mais delongas, gostei muito!

..::CONFESSIONÁRIO DAS LETRAS::.. disse...

Estamos quase sempre esperando por alguém que não vem. Seria tão mais fácil, olhar em volta e perceber aquele alguém que já veio e está apenas esperando que uma pequena porta seja ao menos entreaberta para que possamos enfim alcançar a luz. Mas não, é sempre mais sadicamente prazeroso,buscar a dileta estrela.

Um beijo de boas vindas e indescritível encantamento

Lord Strangford

Anônimo disse...

Cada sílaba das palavras de vocês acabou de ser gravada no meu coração...
Obrigada... pelas boas vindas e por terem lido meus desabafos açucarados (e ainda pelos elogios!!).
Quem bom poder compartilhar deste espaço de fertilidade criativa e infinita beleza...

Sabina.