sexta-feira, janeiro 12, 2007

Fadas em Pasárgada

- Você é de onde? – perguntou a eterna criança.
- De Pasárgada. E você? – falou o sábio.
- Da Terra do Nunca. Você é feliz aí?
- Sim, aqui eu sou amigo do Rei. O que você faz na Terra do Nunca? Auxilia fadas de asas quebradas?
- Não. Formo rios com minhas lágrimas. Aqui só tem criança, não tem ninguém para me proteger.
- Me dá a sua mão. De repente você passa para o lado de cá.
- Eu posso ir para Pasárgada?
- Não. Joana a Louca da Espanha não deixaria. Teríamos que fugir.
- Viveríamos onde?
- No mundo real.
- Lá eu não posso voar. Irei cair.
- Você terá meu colo. Meus braços.
- Eu não sei como chegar no mundo real.
- Eu vou aí te buscar.
- Mas para entrar aqui é preciso ser criança.
- Eu fico na porta, esperando.
- Não é aconselhável ficar na porta da Terra do Nunca. Tudo fora daqui é escuro, opaco e amedrontador.
- Eu sei como é lá fora. Morava lá antes de me mudar para Pasárgada. Eu te conduzo.
- Se eu sair, não posso mais voltar. Deixo de ser criança.
- Tudo bem você deixar de ser criança se puder crescer do meu lado.
- Porque eu sinto medo então?
- Não sei. Crescer é difícil. Eu sei por que já cresci. Mas se eu tivesse alguém do meu lado...
- Eu não tenho ninguém. Você é grande?
- Sou.
- Peter Pan me diz que os adultos não amam, eles perderam a sensibilidade por causa das guerras. Sempre conta que tudo fora daqui é feio e sujo... E causa dor.
- Eu te pareço sujo?
- Não sou eu que digo, é Peter Pan. Ele é mais sábio que eu.
- A primeira lição que eu tenho para você é essa: não julgue que ninguém é mais sábio que você se você não percorreu o mesmo caminho.
- Peter Pan não mente. As fotos que eles nos mostra são tristes.
- Lá realmente tem tristeza. Mas não é só isso. Existem milagres.
- O que é um milagre?
- A vida. E quando eu estiver muito triste, mas triste de não ter jeito, quando de noite me der vontade de me matar... Eu terei o garoto que eu quero, o único, do meu lado. Isso seria um milagre.
- E os humanos sabem disso?
- Sabem, mas muitos esqueceram. Outros não acreditam.
- Eles também não acreditam em fadas.
- Você acredita?
- Claro, eu conheço uma. Você conhece?
- Não. Mas eu acabei de conhecer um milagre.
- Não entendi. Eu falei de fadas.
- Você é jovem demais para entender. Vá dormir. Outro dia eu explico.
- Adeus.
- Adeus.

Bel Ami

4 comentários:

Anônimo disse...

É por isso que eu vivo dizendo: Vou embora para Pasárgada...
Fabuloso!! Lindo demais!!

..::CONFESSIONÁRIO DAS LETRAS::.. disse...

Bel, você me surpreende a cada post. Desta vez, você se superou. Mas então, me diga, onde mesmo mesmo você fica, e para onde gostaria de ir?? Na Terra do Nunca ou em Pasárgada?
Acredito que cada um de nós escolhe um lugar para se esconder e um oásis para onde sonhamos ir. Eu por exemplo, depois de ler o seu post, concluí que vivo na Neverland e sempre culpo Peter por minhas barreiras e limitações, utilizando sempre a mesma desculpa de que ele é mais sábio que eu. Sabe, é mais cômodo.
Mas o que eu queria mesmo era ir embora pra Pasárgada. Afinal, lá eu sou amigo do rei e quem sabe até encontro o caro Bandeira e batemos uma papo em minha casa do campo, compondo rocks rurais, e depois curtimos o silêncio das línguas cansadas até ficarmos do tamanho da paz.
Billie Jean

Anônimo disse...

Meus amigos me chamam de "um sentimental vadio", mas em momento algum eu dispenso minhas lágrimas, concedo cada gota a cada mestre dos sentimentos alheios, e vc merece várias! Um grande abraço, mestre Belo!


Adagga!

Anônimo disse...

Bel... Eu morri e renasci em prantos e odes e vivas com esse texto magistral...
Você me deixou extasiada...