terça-feira, setembro 19, 2006

Arrependimento (rompendo o silêncio)

Arrependimento, embaraço, vergonha, culpa... Como descrever a sensação causada por palavras que, insensatamente, escapam de nossa boca? Como consertar ou remediar o estrago que elas ocasionam em uma amizade, em uma relação de anos e anos? Eu não sei, me pergunto até agora. Principalmente porque o ato insensato foi cometido diante de um amigo que sempre me admirou pela maturidade e bom senso e, de repente, mostrei minha face louca e impulsiva.
Temo as consequências, pois não há algo que prese mais em minha vida hoje que uma boa amizade. Por uma amizade já abdiquei de embarcar em paixões, que certamente terminariam a amizade ou a tornariam estranha. Tenho horror à estranheza de ex-amantes, de pessoas que se conhecem demais e de repente não ficam mais à vontade um com o outro porque não sabem se aquele momento é de amizade ou se pode (ou vai) terminar em um beijo, ou o eterno medo de que um abraço, antes tão normal, possa gerar o mal entendido de que ainda queremos algo mais ou... Ai que confusão, é isso que dá misturar sexo e amizade. Então, por causa disso muitas vezes me contive em meus sentimentos sem dizer exatamente o que queria, o que pensava e o que sentia. Resultado: as amizades ficaram, mas...
É, é verdade, às vezes a amizade torna-se tão próxima que eu fico sem saber onde termina o amigo e começa o amante. Já tive amigos ótimos amantes, porém esse tipo de relação tem um limite tão tênue e tão sensível que parece que o que era tão fácil enquanto não havia sexo envolvido torna-se um peso e aí os amigos inseparáveis ficam sem assunto, desconfortáveis frente um ao outro ou fingindo que nada aconteceu, como uma naturalidade que teme o assunto jamais mencionado, naturalidade tão frágil que parece que vai se desmanchar no ar com uma simples palavra.
Normalmente, começa divertido como uma brincadeira de fim de noite, provavelmente depois de uma bebedeira, mas aí vem o dia seguinte e a necessidade de lidar com as consequências...
Talvez seja só eu que complique demais as coisas, mas é que detesto mal entendidos e tenho muita vontade de sempre falar sobre o ocorrido, quero logo resolver a situação, sempre lutando e fazendo de tudo para não perder o amigo e fazer tudo ficar como era antes, antes do beijo, antes do sexo, antes de o desejo ter se manifestado tão descontroladamente. Mas, me pergunto, até onde isso é possível? Até onde isso não é negar a realidade de algo que mudou para sempre e talvez nem sempre para pior?
Tenho medo, medo do dia seguinte, medo das palavras que escapam e que causam um desconforto descomunal entre amigos, tenho medo de perder a amizade, tenho medo de romper a imagem que a pessoa tem de mim, de perder a admiração, de parecer louca e inconsequente e talvez por causa de todos esses medos, nem pare, nem pense no que significou para mim beijar esse amigo. É que aí vem o outro medo e talvez o maior de todos: o de ter significado mais para mim do que para ele e o horror de ser rejeitada e ficar sem o amigo e sem o amante, medo de ser ridícula e estupidamente carente de me envolver perdidamente com uma pessoa que, claro, me ama e me respeita e me quer, mas apenas como amiga.
Ai o medo do ridículo me paralisa e me causa horror, mas tenho que aprender a ser fiel a mim mesma e a encarar meus sentimentos de frente, mesmo que seja para ser ridícula...

Depois de uma longa ausência:
Mavie.

4 comentários:

Anônimo disse...

Às vezes eu acho que a proximidade leva a crer que é possível um sexo casual entre amigos, mas depois de ler tudo isso eu passei uns minutos tentando imaginar como seria transar com alguma amiga que eu gosto e respeito tanto. Confesso que tive um certo nojo da situação, pois não consegui assimilar a idéia de uma pessoa que mora no meu coração me servindo como objeto de prazer. Bom, mas cada um é cada um, faz o que achares melhor.


(...)
Mas se eu quero e você quer
Tomar banho de chapéu
Ou esperar Papai Noel
Ou discutir Carlos Gardel
Então vá
Faça o que tu queres
Pois é tudo
Da lei, da lei
(...)

Raul Seixas/Paulo Coelho



Bom te ver de novo. Um beijo!



Adagga

Anônimo disse...

Adorei te ler de novo. Me identifico demais com o que você escreve.
Um grande beijo
Cris Moreto

..::CONFESSIONÁRIO DAS LETRAS::.. disse...

A questão é que um amigo de verdade nunca é um mero objeto de prazer um do outro. E é daí que surgem as complicações, porque, mesmo com o sexo, sempre estarão envolvidos, também, respeito, consideração, carinho e o "casual" torna-se difícil...Talvez seja melhor banir essa mistura de amizade e sexo ou assumir que a relação mudou definitivamente...
Beijos a todos e obrigada pelo carinho,
Mavie.

..::CONFESSIONÁRIO DAS LETRAS::.. disse...

É mavie, o maior medo não é de perder o amigo ou o amante, mas sim de o "amigamante" não corresponder ao que não foi somente sexo.
E creio: sexo só por sexo não é bom nem aqui nem na china. Da onde que criaram isso?
Ana