segunda-feira, dezembro 11, 2006

A Necessidade de Acreditar

Há algum ser que acredite ABSOLUTAMENTE em Deus, quando uma dor lancinante o dilacera por dentro?! Há quem busque sempre, de forma invariavelmente sincera, nos braços etéreos (e efêmeros) do Pai, resignação, amparo e calor?! Há quem creia em TODOS os momentos?! Sem pestanejar?! Sem que o demônio da dúvida o fustigue a concluir que pra cima só existe um nada que é impossível alcançar?!
Não sou atéia... Nem acho inteligente ser. Pra falar a verdade acho até muito burro. Porque a gente não sabe de nada, por mais sábio que pareça ou tenha estudado pra ser. Deus, no mundo da gente, serve pra abarcar as coisas que a gente nunca vai saber, justamente porque são coisas as quais Ele faz questão de esconder a resposta, para que nunca deixemos de acreditar Nele.
Deus vive da nossa dúvida. É por termos dúvidas que o buscamos cada vez mais. É por nem sempre nos sentirmos "carregados em seus braços, quando não podemos caminhar", que
continuamos a buscar pelo momento, ou pela dor que nos tornará merecedores de tão ilustre "carona".
Já me questionei profundamente, sim, sobre a existência Dele e hoje afirmo que o faço de forma cada vez mais rara... Não por ter encontrado as resposta que eu procurava, mas por me cansar de vê-las sendo sucedidas por ainda mais dúvidas.
Agora, por exemplo, sinto uma dor que parece entupir meu estômago e mastigar meu coração... E eu continuo a buscar consolo, alegria e esperança nos braços do Pai.
Porque as palavras que escuto não são as que preciso escutar... As pessoas com quem convivo não são suficientes para me bastar... E meus olhos não encontram nenhuma imagem que os façam desistir de chorar.
Se no mundo que posso ver e tocar não encontro aquilo que procuro, então passo a buscar naquilo que às vezes nem por auto-sugestão sinto. Porque pior mesmo, do que a dor, o desamparo e o desespero, é não ter em que acreditar.

Pra vocês um texto da Clarice Lispector que fala bem sobre isso. Espero que gostem:


Meu Deus, me dê a coragem
Clarice Lispector

Meu Deus, me dê a coragem
de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites,
todos vazios de Tua presença.
Me dê a coragem de considerar esse vazio
como uma plenitude.
Faça com que eu seja a Tua amante humilde,
entrelaçada a Ti em êxtase.
Faça com que eu possa falar
com este vazio tremendo
e receber como resposta
o amor materno que nutre e embala.
Faça com que eu tenha a coragem de Te amar,
sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.
Faça com que a solidão não me destrua.
Faça com que minha solidão me sirva de companhia.
Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Faça com que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.
Receba em teus braços
o meu pecado de pensar.

Sabina.

2 comentários:

Anônimo disse...

Olá Sabina,

gostei muito do texto de Clarice.
E gostaria de acrescentar: "A fé sempre anda com a dúvida, afinal, na certeza, quem precisaria de fé?" - Philip Yancey

Beijos
Ana

..::CONFESSIONÁRIO DAS LETRAS::.. disse...

Adorei o texto de Clarice, acho que mesmo as pessoas mais fervorosas já se sentiram assim em algum momento de suas vidas. E gostei tb da citação feita pela Ana, pois a dúvida faz parte do homem e acho q ouvi de um padre uma vez que a dúvida faz parte da própria fé. Muita luz. Morgana.