Diante de tantas divagações acerca do amor, me sinto sem fôlego e sem palavras depois de ter visto muitas das minhas indagações, conflitos e opiniões flutuando neste grande aquário, como alguém já disse um dia...
Pela ausência de forças e de palavras, hoje, faço minhas as palavras de um dos homens que mais admiro e deixo-as aqui para o deleite de todos os confessioneiros.
OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios provam apenas que a vida prossegue e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
Prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
Carlos Drummond de Andrade
Este poema já se fez voz em minha alma por muitas noites de angústia, cansaço e apenas uma gota de esperança, pois de uma forma ou de outra "meus ombros ainda suportam o mundo e ele, ele não pesa mais que a mão de uma criança...". "Por isso agora, eu sou todo certeza. Já não sei mais sofrer."
Sílvio
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